quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Uma Dávida Maldita

– Tudo aquilo de que preciso para sobreviver encontra-se aqui. Aqui mesmo. Tenho ar nos pulmões, um lápis e uma folha de papel.
É como uma arte. Escrever é transmitir para o mundo o complexo quadro da nossa mente. Uma palavra é alma. Por vezes serve não tanto para exprimir pensamentos quanto para escondê-los. Escrever é amar a criação. Flutuar em mundos paralelos, em reflexos distorcidos e perfeitas ondas de fantasia. São esguichos de tinta que perscrutam cada entranha do nosso ser. Dificilmente – diria que impossivelmente - exorcizados da nossa mente, pois a sua essência entrelaça-se à nossa corrente sanguínea.
As palavras…
Profundos precipícios de mistério e verdades ocultas. Peças soltas de um puzzle infinito. Labirintos envolventes de novas dimensões. Mais perspicazes do que um espelho, as palavras são capazes de reflectir tanto a obscuridade como a pureza da nossa mente. Como entidades próprias, como folhas sopradas pelo vento, as palavras envolvem-nos numa ínfima melodia de inconstantes tons. Tons que ferem talvez mais do que a simples pronunciação de uma palavra. Como abelhas, as palavras deliciam-nos com o seu mel. Doce e saboroso. E como abelhas elas atraiçoam-nos com o seu ferrão. Penoso e atroz.
Palavras são uma dádiva. Pequenos troços dispersos no maravilhoso caos de que é feito o mundo. Formas que focalizam e prendem ideias, afiando pensamentos e pintando aguarelas de percepção. É uma dádiva saber usá-las, tanto na entoação do silêncio como perante uma multidão. Um dom que nem sempre precisará de ser partilhado mas, simplesmente, sentido. Como citou Leonardo da Vinci, as mais belas palavras de amor são pronunciadas no silêncio de um olhar.
As palavras são uma maldição. Por vezes mortais. Instigam ao ódio e ao caos. Espicaçam e penetram a sanidade do nosso subconsciente, corrompendo-o de trevas. As palavras podem ferir tanto ou mais que mil punhais. Devastam nações e adulteram a pureza da mente.
E no invólucro deste Universo, encontra-se um dos mais grandiosos talentos de todos: A verdadeira arte da conversação não é apenas dizer a coisa certa no momento certo como deixar por dizer a coisa errada num momento tentador.





Catarina Gil

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